segunda-feira, 26 de março de 2018

Cidade de Rios e Amores



Já quase acabando o aniversário de Porto Alegre, me dou conta de que já havia compartilhado duas vezes no Facebook o vídeo, mas ainda não tinha publicado aqui a letra da canção "Rios e Amores", que me foi encomendada pelo amigo Leonardo Ribeiro, nos idos de 2002, e que ele transformou num belo samba, gravado no seu disco Ponto de Fronteira(link para ouvir o CD inteiro)

É uma das duas parcerias minhas que foram gravadas com brilho pelos parceiros (a outra é "Cerrado", com Luís Felipe Gama)

O clipe acima foi editado por Vinícius Brittes , na Oceano Produções, para exibição num Baile da Cidade, nos tempos em que esse evento aconteci no Parque Farroupilha.

RIOS E AMORES

Porto:
Alegre, mas não sem dor
Foste
destino para os casais
Passam
por ti caminhos demais
Ponto
de encontro de rios e amores

Junto
de um lago – ou rio? – imortal
Avisto
A Usina como um farol
Tinge
de ouro o céu outonal
Festa
de cores no Pôr-do-Sol 

Montes
com a cidade a seus pés
Águas
que sempre são outras águas
Ventos
que brincam pelas calçadas
Gente
sem a qual tu nada és

Muitos
o teu mapa percorreram
Poucos
como Quintana te leram
Passo
a vida a te decifrar
Guardas
mistérios como o luar

Porto
dos sonhos de quem migrou
Longe
de casa veio encontrar
Muitos
amigos pra repartir
Portas
abertas pra quem chegar


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Um poema atravessa a avenida

Inauguramos o ano novo por aqui com um poema não apenas inédito, mas até experimental. O texto é indissociável da sua apresentação visual, modalidade que não é bem a minha praia, ainda que aprecie. Ao custo de um pequeno incômodo, que é ter de virar o seu computador de cabeça pra baixo, ele oferece ao leitor mais de uma possibilidade de "roteiro" para o passeio, quer dizer, a leitura. Descubra o(s) seu(s).

Tem uns dias de atraso, vá lá, mas fica como uma singela homenagem pessoal a Sampa (ou Paulicéia Desvairada, que aniversaria em 25 de janeiro), que andei visitando com mais frequência no ano passado e retrasado, por causa de um curso que fui fazer por lá.

domingo, 19 de novembro de 2017

A Canção do Destino e outras canções e poemas no palco

Troféus do Femup, carinhosamente apelidados de "barrigudas"
Hoje escrevo da cidade de Paranavaí PR, onde a convite da Fundação Cultural participo do Festival de Música e Poesia (Femup), evento com mais de cinquenta anos de história. Em duas noites, sobem ao palco do belo Teatro Municipal, intérpretes de várias partes do país e declamadores(as) locais, apresentando alternadamente canções e poemas. Como se fosse pouco, o evento ainda inclui saraus, um festival para crianças (o Femupinho) e o 49o. Concurso de Contos, para o qual enviei "A Canção do Destino", que teve neste sábado, junto com os demais, uma leitura dramática, seguida de bate-papo, na Biblioteca Pública do Município.

É a primeira vez que tenho um conto publicado em livro. Anteriormente, apenas "Malas que vem de trem" foi publicado na extinta revista (virtual) Bestiário, isto há mais de uma década (hoje a página foi desativada). De fato, trata-se de um gênero a que tenho me dedicado pouco, mas limpando as gavetas talvez dê para fazer um livrinho. Também enviei um poema para o Femup, mas não foi selecionado. Talvez eu deva dar mais atenção aos contos, de ora em diante. Por isso, vou abrir uma exceção neste blog - até então exclusivo para divulgar meus poemas -  compartilhando o link para a Antologia do Festival, onde à página 46 vocês poderão ler "A Canção do Destino".
Quem preferir pode ouvir o conto, nas vozes das mesmas cinco moças que realizaram a leitura dramática, que formam o GT de Artes Cênicas.


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Lições do mestre Armindo Trevisan aos 50 anos de poesia

Meu exemplar do primeiro livro de Trevisan,
resgatado de um baú de saldos da Feira do Livro.
Não faz muito eu lembrava aqui dos 25 anos do meu primeiro livro, Viagens de uma Caneta por meus Estados de Espírito. Mas ficou faltando uma parte importante da história.

Na ocasião, o troféu atribuído pelo Prêmio UFRGS de Literatura (que tive de brigar pra receber) levou o nome do poeta e professor Armindo Trevisan. Coube ao Juremir Machado da Silva, em sua coluna no Correio do Povo, lembrar que o Trevisan está completando 50 anos de carreira, iniciada em 1967 com a publicação de A Surpresa de Ser. Livro que, por sua vez, foi contemplado com o prêmio Gonçalves Dias, da União Brasileira de Escritores, tendo como jurados nada menos que Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Cassiano Ricardo. Logo, concluí, utilizando meus conhecimentos matemáticos, quando da minha estreia em livro Trevisan completava 25 anos da sua.

Mas não sendo este um blog de numerologia, vamos adiante. Quis o destino que não nos conhecêssemos naquele momento. Ele não pode vir ao meu lançamento, por se encontrar em viagem, fora do país. Isso só veio a acontecer cinco anos mais tarde, quando me matriculei no curso de extensão que ele ministrou na PUC-RS, A Poesia como Conhecimento e Experiência. Naquele momento, eu preparava meu terceiro livro, para submetê-los ao Instituto Estadual do Livro, que viria a publicá-lo no ano seguinte, sob o título de Dança das Palavras. Trevisan generosamente leu os originais, fazendo críticas muito bem-vindas. Sem contar o curso em si mesmo, em que tratava, com entusiasmo contagiante, de conteúdos de ordem prática sobre poesia (que não se encontravam no Mestrado em Letras, que eu cursava na época), muito úteis.

Talvez a mais importante das lições aprendidas naqueles dias, e incorporada ao que escrevi deste então, foi a de ler os poemas em voz alta. Até então, eu pensava o metro e a rima dos versos muito visualmente. Tímido, nunca fui afeito à declamação. Mas desde então, o ritmo passou a ter uma importância cada vez maior até hoje, quando muitas vezes é o ritmo de uma frase qualquer que me chama a atenção e, ao ser anotado, transforma-se no primeiro verso de alguma coisa que ainda não sei o que será.

Para homenagear o mestre, vai aqui um singelo poema escrito naqueles dias, como um exercício  proposto por ele. O último verso, de Fernando Pessoa, é tomado como tema do poema, que foi selecionado para uma antologia no concurso Via Verso, da Prefeitura de Ourinhos SP, ainda naquele ano; e incluído depois em Dança das Palavras.

GLOSANDO PESSOA 

Mal percebo o sentimento
Mais adorável do mundo,
E ele se vai, após curto
E belo espaço de tempo.

E eis que me concentro tanto
No breve instante perdido,
Que finalmente me canso,
E cansado então desisto.

Bem depois, quando nem penso
Em coisa nenhuma, sinto
Tornar, pleno, o momento:
Sentir é estar distraído.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

25 anos de poemas nos ônibus e uma cidadezinha

Moacyr Scliar escreveu a orelha do livro.
Neste ano de 2017 Porto Alegre comemora (ou devia estar comemorando) 25 anos de um projeto extremamente bem sucedido de difusão da literatura. Trata-se dos Poemas nos Ônibus, concurso que a Secretaria Municipal da Cultura promoveu pela primeira vez em 1992, selecionando 16 poemas que passaram todo o ano seguinte passeando de ônibus, impressos em adesivos colados em suas janelas.
Dez anos mais tarde (quando foi lançado o livro comemorativo, cuja capa reproduzo aqui), já seriam 53 os selecionados, dentre mais de 5 mil poemas inscritos. Posteriormente, foi ampliado para os trens, numa parceria com a Trensurb.

Conforme publiquei aqui antes, tive dois poemas selecionados na segunda edição do concurso (1993-1994). Mas em 1997, um poema do meu segundo livro O Primeiro Anel foi selecionado para participar como convidado. Ei-lo aí embaixo, com pequenas alterações que fiz posteriormente.

A inspiração do poema vem da cidadezinha de Esmeralda, nos chamados Campos de Cima da Serra do RS, onde vivi entre 1986 e 1989. Mas o vento nos eucaliptos é um fenômeno típico de nosso litoral, e foi mais precisamente em Tramandaí que eu prestei atenção nele.

Neste ano de 2017, pela primeira vez desde sua criação, o concurso Poemas nos ônibus não aconteceu.

CIDADEZINHAS

Mosaicos de verde e telhados imóveis.
O vento anima a dança dos eucaliptos.
A chuva faz tudo parecer de vidro.
O sol espanta o povo e empresta vida
às pedras do calçamento

À noite, o som dos bichos acende
medos, desejos e lâmpadas fluorescentes.
O tempo faz crescerem e leva embora
as crianças. E os homens todos procuram 
lugar certo de plantarem uma outra
cidadezinha.